A Mostra de Arte Insensata foi concebida com o intuito de apresentar à cidade o trabalho realizado nos Centros de Convivência, dispositivos que integram a rede municipal de serviços substitutivos ao manicômio– SUS/BH, e que trabalham na perspectiva da reinserção social do portador de sofrimento mental, tendo como eixo de sua atuação as oficinas de arte e artesanato
O projeto primeiro, que traçou as premissas para o evento, foi elaborado a partir de discussões e reflexões que remeteram ao campo da arte, sobretudo a arte contemporânea e marginal, dos trabalhos sociais, da inclusão, do encontro da arte com a loucura, da originalidade e irreverência do projeto de saúde mental de Belo Horizonte e, fundamentalmente, sobre os rumos das obras e produções artísticas que o serviço vinha acumulando ao longo de seus anos de existência.
Mesmo sem o objetivo primordial de formar artistas e comercializar, o que nos Centros de Convivência se configura como produto de oficina, as obras então produzidas impressionam pela poética, pela singularidade dos sujeitos que as produzem e, especialmente, pela transformação das vidas dos que ali freqüentam.
A percepção deste contexto fortaleceu o desejo de dividir esta experiência com a sociedade criando um laço oportuno e um dizer, um discurso sobre a loucura com a delicadeza que esta, ali cotidianamente, apresenta.
É por avaliar que é fundamental para a construção da cidadania a inserção do sujeito portador de sofrimento mental na cultura que, incessantemente, este serviço se propõe a ocupar a cidade, buscando parcerias que promovam, de fato, o acesso dos usuários aos bens culturais e a sua livre circulação neste espaço, território que pouco conhece, quando não desconhece, a possibilidade de conviver e se envolver de forma saudável com a loucura.
Há sempre uma fronteira no entorno da loucura. A fronteira da cidade, do mercado de trabalho, a fronteira do afeto, do convívio, da tolerância, a fronteira da razão. Assim, pensou-se como eixo temático para edição 2010 da Mostra de Arte Insensata a idéia do percurso, passagem, processo, trajeto, do atravessar: Travessia...!
“O real da vida não se dá, nem no princípio e nem no final.
Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
(Guimarães Rosa / Grande Sertão Veredas)
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