CADERNOS CAPP
VIVÊNCIAS CULTURAIS

Introdução

Chamamos de vivências culturais o nosso contato com outras linguagens como o cinema, o teatro, exposições, aulas-passeio, onde vivenciamos experiências estéticas e a diversidade cultural com um olhar diferente daquele posto sobre os textos teóricos.

As vivências culturais estão intrínsecas no nosso fazer cotidiano, embora, quando apresentadas sob uma das formas de arte, tendemos a vê-las ou senti-las como algo externo. No entanto, ao pensarmos a formação de várias cidades mineiras e na própria construção da capital de Minas, Belo Horizonte. Seus costumes se fundem com os costumes do sertanejo e do citadino, formando esse amálgama que é o mineiro, fruto de tantas gentes e cercado pelas montanhas... guardiãs!

Minas Gerais, surgida na mineração por povos coloniais e portugueses que chegavam às levas em busca do ouro, continuou atraindo imigrantes de todos o lugares do mundo, de todas as etnias. Talvez, esse "silêncio observador" do mineiro que dizem "desconfiado", está no seu cuidado no encontro com o outro, na sua diversidade cultural. Antes de falar, ouve... vê... identifica... entende e identifica-se com... ! A identidade do povo mineiro é forjada na diferença! É uma soma de 500 anos ou, para além de 12 mil e 500 anos?

A exposição "Bravas Gentes Brasileiras" cumpriu o seu papel de mostrar a interação de toda essa gente que habita essas "minas gerais" e, que hoje, integram esse painel humano dessa brava gente brasileira.

Do mesmo modo, em São Paulo, no Parque Ibirapuera, a Mostra do Redescobrimento Brasil +500 fez uma retrospectiva da formação do povo brasileiro, iniciando na chegada do homem à América, cruzando o Estreito de Bering até aos dias atuais. Revelou a cultura indígena de tal maneira e com tantos detalhes que, naquele momento, nos transformamos em índios de novo e vivenciamos sua cultura. Enxergamos a vida, cujo mistério, reflete-se na arte utilitária onde o belo é uma forma de agradecimento às forças da natureza, desde o alvorecer até o entardecer _ o recriar permanente da vida em cada objeto. Desse entendimento advêm o respeito ao índio, ao seu direto de "ser" com toda a sua especificidade. E hoje, mesmo fazendo dos seus utilitários arte e comércio, preservam a essência dos trabalhos dos primeiros índios brasileiros.

Vivenciamos o mesmo sentimento de respeito ao visitarmos o setor de exposição e alternativas para encontrá-lo e reintegrá-lo à turma. Pecebe-se o interesse de todos nessa empreitada, utilizando, inclusive, de conhecimentos matemáticos de problemas que aquela situação suscitara, pois precisavam de dinheiro. Podemos notar que a partir de um certo momento a intenção salarial da professora cede lugar a uma relação de envolvimento afetiva e emocional para com aquele aluno, o que nos faz refletir, enquanto profissionais da educação, que a nossas relações com os nossos alunos transcendem o salário que percebemos e a nossa prática pedagógica.

Assistir a bons filmes pode ser uma experiência bastante enriquecedora, pois, além do aspecto "instrutivo", o cinema tem a capacidade de encantar, de nos fazer sentir personagens, penetrar num mundo de sonhos, onde expressamos nossas emoções, muitas vezes reprimidas. Nele choramos, rimos, nos alegramos e entristecemos. Neste mundo de encantamento e sedução aprendemos muito, de forma segura e permanente, pois nesta aprendizagem houve o envolvimento do ser integral, indissociável de sua parte racional e emocional.

Além do filme, tivemos oportunidade de visitar duas exposições cujos propósitos, entrelaçam-se nas comemorações dos 500 anos do "descobrimento" do Brasil.

Uma, em Belo Horizonte, na galeria de exposições do Palácio das Artes, intitulada "Bravas Gentes Brasileiras". Sua proposta remeteu à formação do povo mineiro, iniciando pela descoberta do primeiro fóssil brasileiro que remonta de 10 mil anos à descoberta de "Luzia", a primeira mulher da América Latina, um fóssil de mais ou menos 12 mil anos, passando pela visitação a mais de 160 sítios arqueológicos referentes a grutas pré-históricas, pinturas rupestres e vestígios de quilombos africanos; essa visitação continuou por tribos mineiras como os Xacriabá, Pataxó, Maxacali e Krenak, testemunhas vivas dessa remota origem do povo mineiro. Foi retratada, também, a influência dos imigrantes italianos, espanhóis, ingleses, sírios e libaneses na prática pedagógica, interdisciplinarmente ou na transversalidade temática, ou como um projeto, um vir-a-ser, entendemos que essa prática não pode desvincular-se de outras práticas, de outras memórias. O que nada tem a ver com a educação numa perspectiva "bancária". O ver o outro, o fazer do outro, o viver do outro reflete-se também no nosso pensar, no nosso viver e no nosso fazer, complementando a nossa prática.

A partir das experiências vivenciadas no CAPP, tivemos a oportunidade de sentir o quão importante são essas práticas. Através delas aprofundamos o nosso conhecimento a respeito de determinados temas curriculares, muitas vezes assimilados de forma abstrata que permite uma maior convivência e integração entre os sujeitos envolvidos na aprendizagem.

Registrando nossas vivências culturais no CAPP 2000

Assistimos no Savassi Cineclube, num sábado, em sessão especial, o filme "Nenhum a Menos", que foi comentado pelo psicanalista Walter Huddi, da UFMG, após sua exibição. O filme relata a saga de uma professora substituta, de treze anos de idade, de nome We, no interior da China, contratada com a condição de receber o seu salário, desde que nenhum aluno evadisse da turma.

Utilizando-se de práticas pedagógicas tradicionais, adotadas e orientadas pelo professor titular, se esforçava para manter todos os alunos integrados à turma. Porém, houve situações de evasão que não puderam ser evitadas. A mais marcante foi a de um aluno que, por determinação de seus pais, se viu obrigado a abandonar a escola em busca de trabalho para ajudá-los financeiramente. Indo trabalhar na cidade grande, lá conviveu com todas a suas mazelas. A professora We, incorformada com aquela situação, principalmente por ver a possibilidade de não receber o seu salário, começa uma peregrinação com os demais alunos da turma, articulando planos ??????????????????????

Refletindo sobre nossas experiências

O filme "Nenhum a menos", a exposição Bravas Gentes Brasileiras e as aulas-passeio à Mostra do Redescobrimento e à Ouro Preto foram momentos ricos de nossa formação no CAPP 2000. Houve intensa troca de experiências, vividas em todos os encontros, nas horas de lazer, durante as discussões e reflexões. Vivemos a emoção, o deslumbramento e o prazer estético diante das obras de arte que vimos. Nossos relatos sobre nossas vivênvias culturais foram carregados de paixão; falávamos da beleza, do encamentamento que presenciamos.

Fomos novamente alunos, sentimo-nos como nossos alunos. Refletimos como seria extremamente significativo para os meninos e meninas de nossas escolas vivenciarem experiências como estas. Pensamos em como eles se envolveriam, como viveriam estes momentos singulares de beleza, que possibilitam a construção de um olhar estético. Sonhamos e desejamos que todas as aulas de História pudessem ser vividas e sentidas, causando-nos a sensação de sermos personagens vivos da história do nosso país.

A partir das experiências vividas, refletimos sobre nossa prática pedagógica, avaliando-a para re-significá-la. Destacamos a importância da cultura e da arte no processo de ensino-aprendizagem e como as aulas-passeios e os filmes transformam este processo em experiências concretas e prazerosas.

Abriu-se para nós, da turma 802 tarde, outros espaços do saber para além dos muros da escola. Percebemos que o nosso grande desafio é repensar o currículo e avançar na construção de novas experiências e práticas pedagógicas, considerando os alunos como sujeitos de cultura.